Estou sendo fiel na minha decisão de não ver quem eu não devo ver, nem atender quem eu não devo atender, e isso me deixa mais inquieta do que de costume. o barulho da chuva não ajuda muito, trazem lembranças, me magoa, me afeta como uma bofetada na cara. continuo rasgada por dentro mas os dados ainda estão rolando, e uma hora ou outra eu vou ficar bem. fim de ano é sempre assim, como em um filme coreano, cheio de gritaria, e acabando sempre em tragédia, mas ás vezes até que faz bem, me faz sentir viva, embora eu sei que quando eu escutar os fogos de natal eu vou chorar, vou chorar de dar dó, chorar todo o buraco, a lama, todo o poço existente em mim, sentindo toda dor que ele e todos os outros e tudo me deu esse ano, e isso vai ser bom, porque de algum modo vejo isso como algo que se chama sacríficio, foi o que o menino que nasceu nessa mesma data fez por mim, sacríficio, dor, pelos outros , sem passar isso para os outros, sentir dor sozinha, pelos outros, pela humanidade. eu não quero me comparar ao Mestre, mas é um modo que eu sempre tentei seguir dele, me sacrificar pelas pessoas, ás vezes, pelo bem delas, sentir amor verdadeiro, na verdade, e de verdade, não o que essa molecada de hoje em dia diz sentir. e vou me sentir bem por isso, por estar comemorando conforme deve ser comemorado. E nos fogos de ano novo, não importa como esteja minha situação, eu irei beber muito, rir muito, dançar muito e festejar, porque já vou estar limpa, liberta, pronta pra mais um ano que se inicia, e com ele, como sempre, muitas histórias, personagens, músicas, cores e sabores. e bem no fundo, acho que isso que é viver, e mais no fundo ainda, eu gosto disso.
Agora eu fico aqui, quieta, observando minha árvore de natal piscar, a taça de vinho vazia do lado dela, aliança no meu dedo e tudo bem. como sempre, daqui uns anos vou sentir saudade disso tudo. e bem no fundo eu também gosto disso. sempre gostei muito de sentir .. dor, amor, paixão, alegria, qualquer coisa, só não gosto do vazio. ou do pouco.
As coisas vão mudar daqui pra frente, e embora eu esteja feliz com isso, ainda fico com um pouco de medo. estou indo em direção a noite escura, ao desconhecido. e minha curiosidade pra saber no que vai dar tudo isso prende minhas ações pra que tudo isso aconteça, mas até o natal quem sabe eu já não aprendi a me controlar. de qualquer jeito, o que me define hoje é um dos trechos favoritos do Caio Fernando Abreu " Mas para você, revelo humilde: o que importa é a Senhora Dona Vida, coberta de ouro e prata e sangue e musgo do tempo e creme Chantilly às vezes e confetes de algum carnaval, descobrindo pouco apouco seu rosto horrendo e deslumbrante. Precisamos suportar. E beijá-la na boca. De alguma forma
absurda, nunca estive tão bem."
